quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Quem dá aos pobres empresta a Deus.

Vou postar uma versão preliminar do texto sobre ditados populares. Comentários serão muito bem vindos.

Quem dá aos pobres empresta a Deus

Quando não vou trabalhar pela manhã, acordo e vou direto ao computador. Leio e respondo alguns emails e visito minhas páginas favoritas. Entre elas encontra-se o blog do professor Adolfo Sachsida. Certo dia o post do blog foi desafiador. Adolfo convidava aos leitores: “que tal escrevermos um livro sobre economia e ditados populares?”. Esse convite foi tentador. Lembrei-me do livro organizado pelo professor Cláudio Shikida, que o Adolfo fez questão de citar (para a leitura da versão preliminar do texto, visite: http://shikida.net/).

Passei a tarde tentando encontrar um ditado, mas todos fugiram de minha cabeça. Ficava de “orelha em pé” buscando na fala das pessoas da rua, no ônibus, na conversa da cozinha de minha vizinha, algum ditado que me salvasse. Porém, meu cérebro foi esvaziado por completo. De repente me surgiu um, apenas um, mas veio bem a calhar: “Quem dá aos pobres empresta a Deus”. Pronto, o ditado está aqui. Mas como explicá-lo economicamente?

Para explicá-lo temos que dividi-lo em duas partes, pois esta frase, aparentemente simples, possui uma grande essência econômica. Primeiro, temos um processo de transferência de renda de uma pessoa, em média, mais rica, para um pobre. Isto ocorre no tempo t. Porém, o credor espera receber algo em troca em t+1. Note, não temos uma relação altruísta, logo o ditado se encaixa perfeitamente na filosofia individualista.

A segunda etapa trata exatamente da expectativa quanto ao tempo t+1. Ou seja, devemos destacar a crença no recebimento do valor investido. Nesta fase, Deus assume o papel de um fundo de investimentos. Isto posto, a primeira pergunta é: Por que devemos dar renda para os pobres?

Certa vez, no intervalo da primeira aula do curso de “Economia da Pobreza”, um amigo questionou: por que não estudar economia da riqueza? Ora, de certa forma, o que ela falou tem sentido. Precisamos de uma razão lógica para enfrentar tal empreitada. É preciso provar que é socialmente desejável transferir renda para os pobres. Não pretendo entrar nas discussões de Thomas Malthus e David Ricardo, não desejo ir tão longe. Prefiro ir até a década de 1970 quando Anthony Barnes Atkinson afirmou que a observação dos axiomas tradicionais da teoria da escolha sob incerteza acarreta em uma preferência coletiva pela igualdade (aversão à desigualdade). Em outras palavras, utilizando-se da estrutura microeconômica, pode-se afirmar que uma distribuição de renda mais equitativa, torna a sociedade mais “feliz”. Sendo assim, temos o nosso argumento formal.

Claro que para que isso seja verdade, será preciso uma série de condições, mas não quero complicar o modelo. Basta saber que, em última instância, a teoria da justiça do John Rawls virá nos socorrer. Portanto, conclui-se que dar renda para os pobres, além de politicamente correto, é uma ação fundamentada pela teoria microeconômica. Por fim, segue a segunda pergunta: Devemos gastar nosso dinheiro agora ou emprestar para Deus?

Nesta etapa entram os conhecimentos de escolha intertemporal. A primeira coisa que se pensa quando vamos emprestar algo é: será que vou receber? Pois bem, no caso de nossa frase, este pensamento envolve a nossa crença ou não em Deus. Logo, quem segue a risca este ditado deve ter algum nível de crença em sua existência. Pressupondo que ele exista então o ato de transferir renda é justificado pela expectativa de um bem-estar superior no futuro (capitalizado e usufruído na esfera do paraíso). Sendo assim, dar esmolas para os pobres nada mais é do que uma escolha de consumo intertemporal ótima, que, por sua vez, gerará um acréscimo de bem-estar social no tempo presente.

2 comentários:

Natalício - Porto Alegre disse...

Quem dá aos pobres paga o motel.

Anônimo disse...

Sú, SÃO PAULO
Quem da aos pobres cria o filho
sozinhoo