sábado, 20 de outubro de 2007

Igor Stravinsky - Poética Musical

Em 1939 o compositor russo Igor Stravinsky foi convidado pela Universidade de Harvard nos Estados Unidos para ministrar um curso na série de conferências Eliot Norton, quando listou e discutiu seis lições que posteriormente foram publicadas com o título Poética Musical. Transcrevo a seguir um trecho da primeira conferência de Stravinsky, como uma forma de resumir a relação ideal entre alunos e professor:

“Até o momento tenho me apresentado apenas em palcos de concertos e salas de espetáculo para aglomerações de pessoas que chamamos de público. Mas nunca, até hoje, me dirigi a uma platéia de estudantes. Como estudantes, certamente desejosos de adquirir informação sólida sobre assuntos que lhe são apresentados, vocês não ficaram surpresos se eu os advertir que a matéria aqui discutida é séria – mais séria do que usualmente se admite. Espero que não se assustem com sua densidade, com sua gravidade específica. Não tenho a intenção de ser drástico ... mas é difícil falar de música caso se leve em conta apenas a realidade material; e me sentiria traindo a música se dela fizesse o objeto de uma dissertação composta apressadamente, salpicada de anedotas e digressões amáveis. Não esquecerei que estou ocupando uma cadeira de poética. E não é segredo para nenhum de vocês que o significado de exato de poética é o estudo de uma obra a ser feita. O verbo poein, do qual a palavra deriva, significa exatamente fazer ou fabricar. A poética dos filósofos clássicos não consiste de dissertações líricas sobre o talento natural e sobre a essência da beleza. Para eles, a palavra techné abrangia tanto as belas-artes como as coisas práticas, e aplicava-se ao conhecimento e ao estudo de regras corretas e inevitáveis de um determinado métier. Eis porque a Poética de Aristótales muitas vezes sugere idéias referentes ao trabalho pessoal, à organização do material à estrutura. A poética da música – é justamente sobre isso que vou falar para vocês; isto é, falarei sobre o fazer no campo da música. É o bastante para dizer que não usarei a música como pretexto para agradáveis devaneios. Quanto a mim, tenho plena consciência da responsabilidade que me incumbe para deixar de levar a sério minha tarefa. Assim, dou grande valor à oportunidade de estar falando para vocês, que estão aqui para estudar e receber tudo o que eu for capaz de oferecer, por outro lado espero que aproveitem a oportunidade de serem testemunhas de uma série de confissões musicais".

Ver Stravinsky, Igor. (1996). A poética musical.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

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