sábado, 24 de maio de 2008

Desigualdade de oportunidades: resultados para o Brasil

Já falei várias vezes sobre a desigualdade de oportunidades. Alguns leitores mostraram interesse no tema, destacando-se o Cristiano. Confesso que sua curiosidade serviu de estímulo para investigar o tema mais a fundo.

Em resumo, a literatura da desigualdade de oportunidades considera que as diferenças de renda só serão um problema social se elas forem frutos de níveis diferentes de oportunidades. Exemplificando: considerem duas pessoas que tiveram o mesmo padrão de vida, educação, raça, backgroud social, entre outras. Ao entrarem no mercado de trabalho, em ocupações similares, um decide se empenhar mais no seu ofício. Consequentemente, ele será mais rico. Dessa forma, a desigualdade entre eles não é um problema social, pois ela surge de uma escolha racional.

Do outro lado, se eles partiram de pontos diferentes, ou seja, as oportunidades de um são um subconjunto das oportunidades do outro, a desigualdade entre eles será um problema social (notem: não estou afirmando que deve haver compensação, essa é uma outra história.)

Pois bem, eu e o Flávio Ziegelmann acabamos de estimar o grau de desigualdade de oportunidades para o Brasil. Tivemos que realizar uma série de procedimentos na construção do banco de dados. Chegamos aos vetores de renda dos pais e dos filhos. Ou seja, consideramos como conjunto de oportunidades o nível de renda do pai do indivíduo. Logo, estamos dentro da literatura da mobilidade intergeracional. Em resumo, um pai pobre e um filho rico, denota um grau de esforço desse último. Aplicamos o Bivariate Kernel Density Estimation.

Os resultados não surpreendem. O Brasil apresenta um nível elevado de desigualdade. Vejam a figura: ela representa a estimativa não-paramétrica para a renda dos filhos condicionada a renda dos pais. A idéia é fixar o percentil de renda dos pais e observar a probabilidade do filho se encontrar no percentil inferior a um determinado p-th. Suponha que fixamos o percentil do pai em 75% e queremos ver a probabilidade do filho pertencer aos estratos inferiores a 25%. Neste sentido, em cada curva apresentada o percentil dos pais está fixado.

Fixamos um ponto na distribuição, eixo x, onde a renda relativa é igual a 1. Assim, observamos quanto o indivíduo deve se esforçar, em cada percentil, para atinguir esse nível de renda. A curva mais alta corresponde aos pais pertencentes aos 5% mais pobres. A mais baixa são os 5% mais ricos. (Essa afirmação é possível dada uma estrutura axiomática, infelizmente não dá pra apresentá-la aqui.)

Note que os que tem pais pertencentes aos 5% mais ricos, precisam de algo em torno de 18% de esforço para atingir o nível médio de renda. Já os 5% mais pobres precisam de que aproximadamente 70% de esforço para chegar nesse patamar.

Os resultados vão além disso, em breve disponibilizarei o paper aqui.

Um comentário:

Aline Carolina Lima disse...

um bom tema para ser debatido.
um paper? fez mais um foi? bom!
sem nenhum ânimo para escrever,mas faço questão de comentar. :)
Abraços.