sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Matéria - Publish or perish

Vejam uma matéria do valor Econômico (por Leo Pinheiro/Valor)

Uma das características mais marcantes da nova geração de economistas é a presença freqüente da formalização matemática nos trabalhos. Professor assistente na Kennedy School, na Universidade de Harvard, Filipe Campante, de 30 anos, diz que isso é um imperativo para quem vai fazer doutorado nos EUA. "É assim que o 'mainstream' da profissão opera. Quem vem para cá tem que usar esse tipo de ferramenta", afirma ele, que vê o uso de modelos como um instrumento poderoso para o estudo.

Campante concluiu o doutorado em Harvard em 2007, depois de fazer o mestrado na PUC-Rio. Ele tem como áreas de interesse a desigualdade e as intersecções entre política e economia. Um de seus estudos atuais trata das relações entre crime e desigualdade, usando como base as favelas do Rio de Janeiro. Ricardo Madeira, da FEA-USP, vai na mesma linha, dizendo que a formalização dá "mais rigor aos argumentos". "Procuro sempre construir modelos que sejam falseáveis e testáveis. É a linha metodológica que segue um cientista."


Economistas de escolas mais heterodoxas dão hoje mais importância ao uso de modelos. É o caso de Rodrigo Sabbatini, de 34 anos, pesquisador do Núcleo de Estudos da Indústria e de Tecnologia (NEIT) da Unicamp. No doutorado, Sabbatini estudou determinantes do investimento estrangeiro direto, com o uso de técnicas econométricas. "Acho crucial conhecer e aplicar essas técnicas, mas sempre de maneira a auxiliar a sustentação de um argumento". "Economistas matemáticos, do alto de seus modelos sofisticados, erram e acertam previsões, assim como os economistas políticos, com ou sem modelos. Em economia, não existe resposta binária, sim ou não, certo ou errado, mas opiniões balizadas em uma metodologia de análise realizada num contexto de incerteza", afirma ele, doutor pela Unicamp, que teve uma "bolsa-sanduíche" na Universidade da Califórnia, em Berkeley.


Esther Dweck, da UFRJ, diz que também entre os heterodoxos há uma preocupação com a formalização matemática, mas com a consciência de que se trata de um instrumento, e não do foco da pesquisa. "Acho que alguns ortodoxos fazem uma inversão de valores." Esther nota que modelos sempre são simplificações da realidade, o que os fanáticos pela prática tenderiam a esquecer.


O uso de modelos decorre em parte da importância de se publicar em revistas especializadas, que costumam dar mais espaço para trabalhos com maior formalização. Flávio Cunha, da Universidade da Pensilvânia, diz que houve uma mudança de atitude das instituições de ponta no Brasil. "Algumas passaram a exigir publicações em revistas de renome para promoção na carreira e outras oferecem elevados incentivos financeiros."


Para Gustavo Britto, pesquisador de pós-doutorado do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da UFMG, hoje é fundamental, se não dominar, pelo menos saber aplicar técnicas de formalização. "Da minha geração para a frente, esse é um divisor de águas", diz Britto, de 31 anos, que é PhD pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Segundo ele, a publicação é atualmente uma "questão de sobreviência acadêmica". Britto submeteu artigos a três periódicos estrangeiros, entre eles o "Journal of Post Keynesian Economics", e aguarda resposta sobre a publicação. Britto trata em seu doutorado da importância das exportações para o crescimento, do produto e da produtividade industriais e da influência de questões regionais no processo de expansão da economia. Paulo Gala, da FGV de São Paulo, tem dois artigos publicados no exterior.


Com a conclusão do doutorado na UFRJ prevista para este ano, André Modenesi, de 33 anos, diz que tem um interesse alto em publicar no exterior. Além da importância de ter uma projeção fora do país, ele diz que órgãos de financiamento de pesquisa dão peso cada vez maior "à participação em congressos no exterior e às publicações internacionais". "Como dependemos deles para financiar nossas pesquisas, temos de nos enquadrar." Sua dissertação de mestrado foi publicada como livro, com o nome de "Regimes Monetários: Teoria e Experiência do Real".


Nos EUA, a pressão para publicar é ainda maior. "Por aqui, o 'publish or perish" é a realidade. É necessário produzir para se manter na carreira, já que se trata do critério número um de avaliação", diz Campante, que tem três artigos publicados em periódicos internacionais, um deles no "Journal of Public Economics". Cunha tem seis artigos publicados em revistas internacionais e outros quatro em processo de revisão, além de dois que saíram em livros.


A importância de ter artigos em publicações de renome leva a uma especialização crescente dos economistas, diz o professor Carlos Eduardo Gonçalves, da FEA-USP, que concluiu o doutorado na USP há mais tempo, em 2003. Com 35 anos, ele diz que a publicação é um critério "objetivo e bom" de análise de desempenho, mas avalia que talvez a disciplina tenha caminhado demais nessa direção. Os economistas passam a dominar com mais profundidade pequenas áreas e nichos da disciplina, em detrimento de uma visão mais genérica. "Ganha-se em profundidade, mas se perde em amplitude", diz Gonçalves, para quem, nesse cenário, é mais difícil surgir um novo Mário Henrique Simonsen.


Discordo fortemente da posição da Esther. Os argumentos podem ser listados no recente debate sobre a importância da matematica na economia.

P.S: Agradeço ao Fábio Rodrigo pela dica.

2 comentários:

Gustaf disse...

Erik,

Por falar da aplicação da matemática na economia, daria para me indicar um outro livro de econometria além daquele "Métodos econométricos" do Johnston e DiNardo? Não achei esse livro nem na Siciliano e nem na Livraria Cultura (está esgostado no último). Vai servir para a "Introdução à Econometria"...

Joao Melo disse...

Erik, bom domingão do Faustão!
Que matéria você foi arranjar. Cada dia entendo que Economia é difícil, porém, ainda mais difícil, se inexistir um bom entendimento de matemática e estatística/econometria por trás.
Também entendo que somente MODELO não é a verdade REAL.
Quanto a publicar é o que você tem me ensinado: trabalhar duro é necessário e nada de ficar vendo o Faustão.
Abração neste Feriadão.
João Melo