segunda-feira, 31 de maio de 2010

A mobilidade da Dilma

A candidata Dilma Rousseff afirmou, no fórum da Exame, que:

É preciso resgatar o processo de mobilidade social, que foi parcialmente interrompido ao fim do 'Milagre Econômico’.


(Leiam mais AQUI e AQUI).

Em primeiro lugar, é preciso definir a mobilidade social. Os sociólogos costumam considerá-la como a transição entre classes de ocupações e/ou estratos sociais. (Interessados, leiam Treiman, D. & Ganzeboom, H. (1990). Cross-national comparative status attainment research. Research in Social Stratification and Mobility, 9:105-127.)

Já os economistas focam suas atenções na dimensão renda, analisando a transmissão dos salários entre as gerações, em geral de pai para filho (destaco o estudo de Zimmerman, D. (1992). Regression toward mediocrity in economic stature. American Economic Review, 82:409-429, como referência.

Dito isso, um estudo relacionado a mobilidade social, ou econômica, deve levar em conta, pelo menos, dois pontos no tempo: um ano inicial, t, e um final, t+1. Esses períodos devem ser separados por um bom intervalo de tempo (mais de quinze anos, pelo menos). Dessa forma, não tem sentido falar de mobilidade social de um ano para o outro.

Para o Brasil, as principais referências sobre a mobilidade social são os livros de:

Pastore, J. (1979). Desigualdade e mobilidade social no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Pastore, J. & Silva, N. (1999). Mobilidade social no Brasil. São Paulo: Makron Books.

As principais conclusões dos estudos são (citando Ribeiro (2000)):

[...] que em 1996 as pessoas estavam, em média, ocupando posições de status mais altas e melhores do que as posições que seus pais e as pessoas em geral ocupavam em 1973. Pode se dizer que, de uma maneira geral, as condições de vida, ou padrões de vida das pessoas melhoraram. Mais gente tem acesso a serviços de saúde, educação, moradia etc. de melhor qualidade. Em contraste, as desigualdades de acesso ou oportunidade, definidas pelas taxas relativas de mobilidade social, não mudaram no Brasil, ou mudaram muito pouco. -Grifo meu.


Ou seja, em 1996 estávamos melhores do que em 1973. Isso é comprovado empiricamente.

Sob o ponto de vista econômico, Pero e Szerman (2005) demonstraram que o Brasil apresenta um baixo nível de mobilidade econômica no período de 1976 e 1996.

Logo, podemos concluir que embora a situação tenha melhorado na década de 1990 em relação a década de 1970, ainda estamos muito atrás dos países desenvolvidos.

Em suma, dado que as pesquisas se baseiam nas PNAD’s, compreendendo, portanto, o período de 1973 a 1996, não consigo vizualizar de onde a candidata retirou tal conclusão. Como ela pode afirmar que a mobilidade social era maior no período anterior ao milagre econômico se não existem dados que confirmem isso?

Candidata, me envie os dados, pois tenho interesse no assunto.

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