sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Greve nas federais

GREVE NAS FEDERAIS: QUEM TEM MEDO DOS PLEBISCITOS?*

*Flávio Lúcio R. Vieira
Prof. Departamento de História da UFPB

Por que incomoda tanto que uma entidade pergunte o que acham os professores das Universidades Federais, fora do ambiente das assembleias, sobre uma proposta que diretamente lhes diz respeito? Por que tantos ataques a um mecanismo que torna possível a participação direta? Afinal, o voto só é válido depois que a “vanguarda” opina sobre como como esse professor deve votar? Qual o critério para dizer que a opinião dos professores que participam das assembleias é mais democrática que a oportunização para que os outros 90 ou 95% participem dessa decisão?

Foi o que fez o Proifes nos sindicatos locais que dirige e nas universidade onde está presente. Da consulta realizada pela entidade, participaram 5.222 professores, de 43 Universidades e Institutos federais. Desses, 3.854 (74%) responderam favoravelmente à proposta e 1.322 (25,3%) foram contrários. Quantos professores participaram das últimas assembleias da Andes? Por que essa entidade não divulga os números dessa participação?

É no mínimo estranho que haja tanta resistência em aceitar a ideia de levar as grandes decisões para além das fronteiras das assembleias. Muitos espumam de raiva à simples menção da proposta e escondem seu constrangimento por serem contra ela, em geral com deboches e ironias. “Isso é peleguismo!”, “É medo de enfrentarem o debate nas assembleias”. Talvez seja isso mesmo. Eu próprio já fui quase agredido quando, na greve de 2005, ousei ser contra a “orientação” do “comando”. As palavras mais elegantes de que fui chamado foram “pelego” e “vendido”, fora os dedos na cara dos que viam na ousadia da minha discordância um ato inconcebível. Hoje, criei coragem e enfrentei essas mesmas pessoas e fui à assembleia defender que a ADUF faça o mesmo e escute os professores, via plebiscito, sobre a proposta do governo e a continuidade da greve na UFPB. Para quê? Ao final de minhas palavras, acorreram à lista de inscritos diversos professores, os de sempre, agora acrescidos por mais alguns jovens professores, já encantados - e tão autoritários quanto - a retórica da Andes.

Tive a ousadia de sugerir-lhes que olhassem para os lados e observassem os ambientes em que são realizadas as assembleias? Quantas pessoas cabem nos auditórios da UFPB. A assembleia que decretou a greve, por exemplo, foi realizada num espaço que cabia menos de 200 professores. Muitos deles retornaram porque sequer puderam entrar no recinto. Fora as vaias dos estudantes, que ocupavam metade dele, contra os que desejavam algo diferente do que estes queriam, como se fossem eles os futuros “grevistas”.

Ou seja, depois de hoje e reforcei a convicção de que quem já foi vítima dessa fúria autoritária não se submete novamente a tamanho constrangimento. Quem é maluco? O que assim procedem acabam “convencidos” da inutilidade de sua resistência, assim como aprendem na prática o significado oposto do que é respeito à pluralidade e à diversidade de opinião. E esse povo criticou durante muito tempo o "pensamento único" e, de vez em quando, se arvoram na crítica do "stalinismo". Pode?

Por isso, mesmo previamente derrotado, mantive a proposta da consulta aos que passam longe das assembleias, pois não é em nome deles as decisões lá são tomadas? Sem eles, não haveria greve; sem eles, não haveria a universidade; sem eles, não haveria sequer sindicato, pois quem pagaria as contribuições anuais? Esses professores são tão professores como os que frequentam as assembleias e merecem ser ouvidos e participarem das decisões que também, espero que sim, lhe dizem respeito.

Por um plebiscito ou qualquer outro mecanismo de consulta para decidirmos sobre a aceitação da proposta do governo e a continuidade da grave. Defenda sem medo. Você não estará numa assembleia da Andes.


Um comentário:

Peregrino disse...

Aqui, na UFC, aconteceu algo parecido na última assembléia. No momento, estamos tentando viabilizar o plebiscito via petição pública on-line. Como, pelo estatuto da ADUFC, necessitamos de 10% ou mais dos associados, 260 assinaturas são suficientes. Já chegamos a esse número. Espero que os de sempre não inviabilizem, novamente, a consulta pública.

Prof. José Coelho